Gestão Pós incêndios

Recomendações para a extracção de madeira queimada e protecção do solo contra a erosão

Após um incêndio florestal o solo fica desprotegido e sujeito a erosão devido à destruição da vegetação e da camada de manta morta. Para além disso, depois de um incêndio, geralmente forma-se uma camada extremamente repelente à água por baixo das cinzas, impedindo a infiltração da água e promovendo a escorrência por cima do solo. Desta forma, após as primeiras chuvas, as cinzas e o solo são facilmente arrastados ao longo das encostas, o que pode resultar na degradação da qualidade da água (poluição) a jusante das áreas queimadas.

O Município de Arganil pretende sensibilizar e aconselhar todos os intervenientes no setor florestal do nosso Concelho quanto às medidas de gestão pós-incêndio, nomeadamente no que respeita à extracção de madeira queimada e proteção do solo contra a erosão. Assim, o Município de Arganil recomenda:

 

  • Em povoamentos de eucaliptos:
    • cortar todas as árvores cuja copa se encontre completamente afectada
      1. se a madeira for para serração à cortar durante 2018
      2. se a madeira for para trituração à cortar durante 2018 (preferencialmente até Setembro de 2018 se o destino for a valorização da biomassa)
    • no caso de reconversão florestal do eucaliptal, o ideal será adiar a operação de remoção das toiças até ao Verão seguinte, com o objetivo de garantir uma cobertura vegetal mínima que proteja o solo da erosão

 

  • Em povoamentos de resinosas (pinheiro bravo, pinheiro manso, pinheiro silvestre, pseudotsuga):
    • cortar todas as árvores cuja copa se encontre completamente afectada
      1. se a madeira for para serração à cortar até Dezembro de 2017
      2. se a madeira for para trituração à cortar até Setembro de 2018

 

  • Em povoamentos de folhosas (freixo, choupo, bétula, carvalho alvarinho, carvalho negral, sobreiro e azinheira):
    • não deve cortar nenhuma árvore e deixar passar uma Primavera para um diagnóstico rigoroso do estado das árvores, antes de decidir sobre a sua remoção
  • Em zonas altamente susceptíveis à erosão (por exemplo, em grandes declives), considere a possibilidade de efectuar uma extracção selectiva, não removendo as árvores queimadas
  • Durante o corte e a retirada da madeira queimada deverão ser observados os princípios de protecção do solo de forma a minorar os processos de erosão, nomeadamente:
    • sempre que o terreno apresente elementos que possam contrariar a erosão (por exemplo, muros ou muretes de suporte de terras), as operações de exploração devem ser executadas de modo a garantir a sua conservação
    • nas faixas de protecção às linhas de água, não se deve verificar:
      1. a circulação de máquinas de exploração florestal
      2. o arraste de troncos e toros
  • a deposição de resíduos de exploração
  • deve evitar-se a movimentação de máquinas pesadas e o arrastamento dos toros cortados nas operações de extracção
  • é preferível a utilização de máquinas que movimentem o material lenhoso sem que este entre em contacto com o solo
  • os movimentos das máquinas sobre o terreno devem ser restritos ao essencial, e de modo a evitar configurações de sulcos que promovam um maior escoamento da água

 

  • As seguintes medidas adicionais para prevenção da erosão:

 

A.   Criação de efeito de barreira usando troncos caídos
ObjectivoComo fazerDesvantagensVantagens
Reduzir a velocidade da água de escorrência, aumentar a infiltração evitar a perda de sedimentos.

 

Permitir a retenção das cinzas.

No caso de existir um elevado excedente de madeira queimada de difícil escoamento ou se os troncos das árvores se encontrarem irremediavelmente queimados, através da sua imobilização em cima do solo, ao longo das curvas de nível, escorados por estacas ou pelos cepos/toiças de preferência com uma altura de cerca de 0,5 a 1 metro. Os troncos queimados podem ser ou não amarrados às toiças.

 

Esta solução só é possível se estivermos em povoamentos florestais em que os compassos permitam esta solução e em que seja possível colocar os troncos perpendicularmente ao sentido do maior declive da vertente. Nos casos em que não seja possível tal disposição devem usar-se estacas. A distância entre as várias fiadas paralelas de troncos depende do declive.

 

Utilizando uma técnica semelhante podem construir-se pequenas barragens de correcção torrencial em linhas de escorrimento ou nas valas abertas para drenagem.

A construção e dimensão destas barragens devem ter em linha de conta o caudal específico da linha de água. O objectivo não é parar o fluxo de água mas abrandar o escorrimento evitando caudais torrenciais.

Muita mão-de-obra.

 

A permanência destas barreiras pode aumentar a carga combustível, aumentar o risco de incêndio e facilitar a propagação do fogo.

Em áreas extensas, o espaçamento regular destes troncos deitados sobre o solo constitui uma barreira que vai limitar a continuidade da escorrência nas vertentes e como tal contribuir para reduzir as perdas de cinzas/nutrientes.

 

São utilizados materiais locais de baixo custo, de modo a tornar este tipo de operações economicamente e socialmente viáveis.

 

B.   Aplicação de resíduos orgânicos (Mulch)
ObjectivoComo fazerDesvantagensVantagens
Os resíduos orgânicos são utilizados para aumentar a cobertura do solo, reduzindo o impacto da chuva e a erosão.Existem vários tipos de material possíveis de utilização como os resíduos do abate de árvores, que têm a vantagem de existirem no local e que deverão ser agrupados e dispostos em cordões de retenção orientados segundo as curvas de nível, em faixas regulares e paralelas. Poderão ainda ser utilizados estilha ou palha.Elevado custo quer do material, se não se utilizar resíduos locais, quer da aplicação no terreno.É uma técnica bastante eficaz na protecção do solo e redução da erosão.

 

C.   Criação de oportunidades de infiltração
ObjectivoComo fazerDesvantagensVantagens
Romper a camada do solo repelente à água que se encontra imediatamente por baixo da camada de cinzas.

 

Aumentar a taxa de infiltração de água no solo e permitir a acumulação das cinzas.

De forma manual, com um ancinho ou um gadanho de forma a abrir um conjunto de pequenos sulcos perpendiculares ao maior declive da vertente (ao longo de pontos com a mesma cota). Para se tornar eficiente este trabalho deve repetir-se pelo menos de 25 em 25 metros, se possível com menor espaçamento. A acumulação de cinzas que colmatem estes sulcos não é importante já que estas são hidrófilas e não impedem a infiltração.

 

Para áreas mais extensas, pode recorrer-se à utilização de máquinas agrícolas que abram sulcos mais profundos (devem atingir pelo menos 10 cm), com espaçamentos superiores a 25 metros.

Dificuldade de progressão no terreno se os sistemas radiculares ou mesmo as árvores aí permanecerem, dificultando a actuação das máquinas.

 

Em grandes áreas o custo é elevado.

Diminuir as perdas de nutrientes retidos nas cinzas, quer através da criação de oportunidades de infiltração da água no solo e através da destruição da camada do solo repelente à água que se forma durante o incêndio.

Para mais informações contacte o Gabinete Técnico Florestal do Município de Arganil.

1 Baseado em DGRF (2005). “Gestão pós-fogo – Extracção de madeira queimada e protecção da floresta contra a erosão do solo”. Elaborado no âmbito do Projecto “Recuperação de Áreas Ardida”, Centro PHOENIX do Instituto Florestal Europeu. Disponível em: http://www.icnf.pt/portal/florestas/dfci/relat/raa/resource/doc/GestaoPosFogo-Brochura-DGRF2005.pdf



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