O dia em que Walter Rohrl lutou contra o nevoeiro em Arganil e ganhou

A história da etapa de Arganil no Rally de Portugal de 1980 é especial. Walter Rohrl desafiou um intenso nevoeiro ao longo de 42 km, percorridos à noite, e conseguiu ser o mais rápido de todos, com uma vantagem de 4 minutos. Será que o nevoeiro ia desaparecendo da estrada à medida que Rohrl avançava? ou será que ele tomou um atalho? ou houve falha dos cronómetros? Durante anos o debate em torno desta questão não chegou a outra conclusão: tudo se deveu à mestria do piloto. Anos mais tarde, Walter Rohrl definiu este momento como a mais inesquecível experiência por ele vivida, a altura em que mostrou a todos a sua extrema competência a conduzir sob nevoeiro.

WALTER ROHRL CONSIDEROU AQUELE MOMENTO COMO UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL

1980 foi o quarto ano de Rohrl como colega de equipa de Markku Alen na Fiat. E o finlandês considerava-se a si próprio como o grande especialista da prova portuguesa. Aquele rali já estava a ser marcado por muitas peripécias. Na primeira noite de prova, Rohrl teve um acidente com uma carrinha de serviço que circulava em contramão numa das secções. Dois dias depois veio Arganil.

Durante o reconhecimento, Rohrl disse ao seu navegador Christian Geistdorfer que se deviam preparar para o nevoeiro. “Vamos fazer mais umas voltas ao troço para termos a certeza de que, caso surja nevoeiro, sabemos o que fazer! E foi assim que acabámos por percorrê-lo cinco vezes, o que é imenso para mim. Após disso já tinha 95% do troço na minha cabeça e nem sequer precisava das notas do navegador. Em qualquer troço onde eu tivesse passado cinco vezes, eu sabia perfeitamente o que iria encontrar”.

O PILOTO ALEMÃO TREINOU O TROÇO DE ARGANIL DE OLHOS FECHADOS DEITADO NUMA CAMA

E o nevoeiro lá estava à espera dos pilotos nas montanhas de Arganil. Para Rohrl, com o seu carro devidamente reparado, era a oportunidade para marcar a sua autoridade face a Markku Alen. “Durante o rali o caso do acidente com a carrinha de assistência tinha-me dado motivação extra”. À partida para classificativa 33, “na primeira passagem por Arganil, disse ao Christian: ‘Sr. Geistdorfer, aperte os cintos, agora vou-lhes mostrar o que significa ser rápido e depois disto vão todos deitar fora as licenças desportivas’”.

Rohrl foi 3m48s mais rápido do que Bjorn Waldgard, que guiava um pesado Mercedes 450, e 4m40s mais rápido do que Alen. “Ainda hoje, quando recordo que fui quase 4 minutos mais rápido do que toda a gente, tenho dificuldade em acreditar. Perguntaram-me como consegui, mas não sei. Não houve uma única situação de perigo, foi tudo perfeito”. Walter fez mesmo o troço de Arganil de olhos fechados. É que no descanso antes de iniciar aquela classificativa, Rohrl reviu de olhos fechados quando estava deitado na cama, com um cronómetro na mão. “Fiz Arganil mentalmente em 35m50s”.

Na primeira passagem por Arganil, Walter fez 35m14s. Venceu o Rally de Portugal com quase um quarto de hora de avanço sobre Alen e retomou a liderança daquele campeonato, que viria a ser o primeiro dos dois títulos mundiais conquistados pelo alemão.

Artigo: Revista ACP | Especial Vodafone Rally de Portugal 2019
Autor: Martin Holmes, o mais antigo repórter de ralis (ainda em atividade)


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