Sinde Filipe enche o palco da Cerâmica Arganilense numa brilhante interpretação do monólogo “As mãos de Eurídice”

 

Sinde Filipe foi Gumercindo Tavares na noite do passado sábado, dia 16 de Novembro na Cerâmica Arganilense, numa irrepreensível interpretação do monólogo do brasileiro Predo Bloch “As mãos de Eurídice”, escrito em 1949.

Sinde Filipe, o aclamado ator que já pisou os palcos do Teatro São Luiz, Teatro Maria Matos, Teatro Villaret, A Barraca, entre outros, pisou pela primeira vez o palco do Auditório da Cerâmica Arganilense, numa representação daquela que é considerada a peça mais interpretada da dramaturgia brasileira e que foi pela primeira vez encenada por Rodolfo Mayer em 1950, “As Mãos de Eurídice”.

Este monólogo surge como um drama existencial que narra as desventuras do escritor Gumercindo Tavares, que decidiu um dia abandonar a esposa Dulce e seus filhos, para fugir e viver uma paixão louca com a bela e ambiciosa Eurídice. Toda a ação se passa na casa onde Gumercindo deixou a sua família, que encontra vazia ao retornar 7 anos depois, falido e abandonado pela amante Eurídice. Remexendo nas gavetas vai descobrindo o que se passou na sua ausência. O filho morrera de tuberculose e a esposa está agora a refazer a sua vida ao lado de outro homem. Sentado num banco vai relembrando cada momento desde o dia em que partiu. Vive conflitos, luta contra a solidão, dá conta da sua loucura e busca no público, numa constante interação, cumplicidade. Busca compreensão para os seus erros, tenta justificar-se, pede clemência, absolvição para os seus pecados.

O monólogo de Pedro Bloch esteve presente na Broadway, Booth Theatre e foi representado mais de três mil vezes por Rodolfo Mayer que no fundo dedicou a sua carreira artística à interpretação desta peça. No Reino Unido a peça seria introduzida e encenada por Sean Connery e em Portugal, coube a Sinde Filipe presentear-nos com esta soberba, exigente e irrepreensível prestação, onde só havia de fato, lugar para um – Gumercindo Tavares e a sua loucura.

Sinde Filipe volta assim, passados 20 anos, aos palcos do teatro que o viram nascer enquanto artista. Um regresso aguardado de um ator com uma carreira dedicada à arte da representação. Como Gumercindo diz ao longo do seu consterno desabafo: “Eu voltei, Dulce! Eu voltei!”, Sinde também voltou, mas à dissemelhança da sua personagem, não encontrou uma casa vazia mas sim uma casa cheia, cheia de amigos, de admiradores, de reconhecimento pelo trabalho de uma vida de palco.



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